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Artigo

Março Ácido - Impactos da operação vão perdurar na memória e no fluxo de caixa do setor, comprometendo os resultados do ano

10/05/2017

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As águas de março fechando verão” vão ficar na memória e no fluxo de caixa do setor de proteína animal brasileiro por um longo tempo. Provavelmente o aroma ácido das memórias vai durar mais do que o outono de 2017.


Os números de mercado do mês passado são ruins, uma vez que houve ajustes em todos os fronts: exportações, produtor e consumidor. Nas exportações, observamos queda de volume embarcado na carne de frango e bovina em relação a fevereiro (tabela 1). A carne de frango sentiu com mais força a retração do mercado, caindo mais do que a carne bovina. Os preços de exportação de carne bovina e de frango ainda não caíram, mas correm o risco de cair em abril. A carne suína, na contramão, cresceu em volume e valor, mostrando que houve alguma substituição entre proteínas animais.


Comparando março de 2017 com março de 2016, chama a atenção a mais intensa queda de volume, sobretudo na carne bovina. O aumento de preços em relação a março de 2016 tem pouco significado porque ele reflete uma taxa de câmbio mais desvalorizada no ano passado. Conclusão do front externo: apenas duas semanas de março foram capazes de mostrar que a Operação Carne Fraca teve grande impacto nas receitas de exportação.


No mercado interno, do lado do produtor, os preços tiveram forte queda e não dão nenhum sinal de recuperação dos patamares pré-março de 2017 (tabela 2). Os ajustes na arroba do boi e do suíno vivo foram praticamente instantâneos (-3,5% e -12,9%). A carne “ de frango vendida pelos frigoríficos, que representa o preço ao produtor, seguiu a mesma tendência (-4,3%). Do lado do consumidor, o mesmo processo: queda nos preços nas três carnes, embora com menor intensidade do que nos preços ao produtor. Os preços no varejo, portanto, a menos que ocorra algum ajuste na oferta, devem cair ainda mais. Ou seja, o mercado interno está com menor demanda e maior oferta, derrubando os preços.


A boa notícia, agora que já terminaram as águas de março, é que no front externo todos os mercados que fecharam para importações voltaram atrás, graças a um trabalho de grande dedicação e empenho do Ministério da Agricultura e do governo federal como um todo. De fato, o Brasil possui um sistema de inspeção das indústrias de proteína animal com processos estruturados, mecanismos de alerta que funcionam e baseado na observação da integralidade dos eventos que podem causar condenações dentro e fora das indústrias. Essa certeza de que o sistema é seguro e funcional credenciou o Ministério da Agricultura a liderar a força-tarefa que reverteu as barreiras levantadas. Na sua essência, o sistema de inspeção é confiável e a comprovação disso foi a reversão das barreiras. Os países importadores indicaram que, mediante os devidos esclarecimentos, não perderam a confiança no sistema brasileiro, mesmo diante de uma operação de grande magnitude como a Carne Fraca.


Lapso temporal


Vivemos, então, apenas um lapso temporal de mercado, cujos impactos se restringem unicamente aos dias 17 a 30 de março? Não é essa minha opinião. Há implicações mais profundas no mercado de proteína animal que foram disparadas por essa operação e que precisam ser analisadas com precisão. A primeira delas é que o mercado de capitais precificou a operação de forma mais intensa do que o mercado consumidor. A queda de valor das empresas foi maior do que a de preços nos mercados interno e externo. Os investidores hoje se perguntam se há nas empresas de proteína animal riscos antes desconhecidos que agora apareceram e que ainda não foram valorados. As reações das empresas serão fundamentais para mitigar tais percepções de riscos. Provavelmente algumas empresas serão mais competentes do que outras nesse processo de esclarecimento e formação de credibilidade para os investidores. E vale lembrar também que, sobretudo em suínos e aves, muitas empresas não são conhecidas pelos investidores porque são cooperativas. Elas não estão imunes às novas percepções de riscos e também precisam se posicionar.


A segunda implicação mais profunda é de que os países importadores vão querer mais evidências de que o sistema brasileiro funciona. Nem tanto por uma questão de riscos sanitários, mas pela seguinte precaução: até onde confiamos na informação que a autoridade sanitária brasileira nos fornece? A reação a que temos assistido é de que os importadores se tornarão mais exigentes na inspeção no destino do que eram pré-Carne Fraca.


Nesse ponto me valho da experiência de ter sido secretário do Ministério da Agricultura. Eu não tenho a menor dúvida de que o ministério tem os instrumentos e as competências para evidenciar aos importadores de que não há necessidade, nem tampouco é oportuno intensificar a inspeção no destino. Mas, nesse caminho de trazer as exigências dos importadores para o patamar pré-Carne Fraca, sim, é oportuno a Pasta repensar alguns pilares do seu sistema de inspeção. Mas o ministério e seus fiscais são partes muito envolvidas com o sistema e, por isso, terão dificuldades de liderar um processo de aprimoramento no modelo atual. Por que é necessário discutir o modelo atual? Por exemplo, quanto de análise de risco o ministério utiliza para inspecionar os estabelecimentos? Até onde eu tenho informação, nada.


A terceira implicação é que o retorno à normalidade no mercado interno e externo deverá fazer o consumidor de lá e daqui voltar a consumir, mas o impacto nas cadeias de carne bovina, aves e suínos da retração no mês de março e, provavelmente, no mês de abril, vai deixar cicatrizes. Parte do resultado das empresas em 2017 já está comprometida pelos menores preços e pela demora futura de eles voltarem aos patamares anteriores. Há, portanto, grandes riscos de haver redução na produção como forma de reajustar os preços cadentes.


Agravantes


Tudo isso num momento de mercado com circunstâncias agravantes: câmbio valorizado, prejudicando exportações; arroba do boi em queda anterior à Carne Fraca, prejudicando os pecuaristas; fluxo de caixa comprometido das empresas de frango e suíno devido aos elevados preços de milho no ano passado e provável aumento da capacidade ociosa em parte dos frigoríficos de bovinos devido à menor demanda. Por fim, nos perguntamos: os problemas de corrupção orientada para agilizar processos evidenciados pela Carne Fraca justificam tamanho impacto no mercado e nos produtores? Não. Tais problemas justificam uma investigação diligente e punitiva? Sim. Havia como separar as duas coisas? Sim. Infelizmente, não houve essa separação.

Fonte: Revista DBO

Autor: André Nassar

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