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Notícia

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25/05/2015

Parceria com a China cria oportunidades ao Brasil, mas não afasta os riscos de o país ficar de fora de mega-acordos liderados por EUA e Japão

Em discurso de boas-vindas ao premiê chinês Li Keqiang, na terça-feira 19, a presidente Dilma Rousseff fez questão de destacar o papel dos dois parceiros na construção de uma “nova ordem global”. A visita do representante chinês marcou a celebração de um casamento previsto para durar até 2021, com acordos comerciais e de investimento de mais de R$ 160 bilhões, e o aprofundamento das relações sino-brasileiras. Embora as palavras da presidente se referissem à nova parceria, o diagnóstico do rearranjo mundial não poderia estar mais preciso.

Enquanto Dilma ainda desfrutava do anúncio da cifra – uma das poucas novidades positivas divulgadas pelo governo neste ano –, o presidente americano Barack Obama obtinha uma vitória no Congresso que facilita a aprovação de um mega-acordo de preferências –redução de burocracia e tarifas, entre outras – com o Japão e outros dez países, responsáveis por 40% do comércio global, chamado de Parceria Trans-Pacífico (TPP, na sigla em inglês). A nova ordem mundial começou a ser configurada com a desaceleração da China e a consequente queda no preço das commodities, motor do crescimento brasileiro nos últimos anos.

O fim do bônus externo expôs fragilidades internas e aumentou o desafio da economia. Do outro lado, a mudança no padrão de crescimento chinês, mais voltado ao consumo interno e a investimentos no exterior, alçou o Brasil para uma posição ainda mais estratégica. Daí a importância do casamento selado na última semana entre as duas partes. Na bagagem, os chineses trouxeram uma montanha de recursos, a serem destinados, sobretudo, a projetos de infraestrutura, a maior necessidade brasileira no momento. Vale e Petrobras, fornecedoras estratégicas de insumos para a China, foram contempladas com financiamentos de US$ 11 bilhões.

Em contrapartida, o Brasil conseguiu emplacar acordos em favor de companhias nacionais, como a Embraer, Caixa, Odebrecht e o setor de frigoríficos. Na visita, Dilma enfatizou a necessidade de encontrar harmonia nos acordos. “Como diz um provérbio chinês: se o vento soprar em uma única direção, a árvore crescerá inclinada.” Ao confirmar a visita a Pequim, em 2016, a presidente demonstrou um esforço para o equilíbrio. Embora visto com ressalva, dado o histórico de promessas não cumpridas, os acordos com os chineses são avaliados como positivo por alguns analistas.

“A China é uma solução”, afirma o embaixador Rubens Ricupero. “Eles têm a possibilidade de oferecer financiamento em um momento difícil para nós no mercado internacional.” Na estratégia externa de Dilma, é o sinal dos EUA que preocupa. O Brasil está de fora do TPP e a ofensiva é vista como uma tentativa dos Estados Unidos de contrapor a crescente influência chinesa na tal “nova ordem mundial”. Com o empenho dedicado à aprovação de medidas para passar o acordo no Congresso, o presidente Obama endossa a relevância do tratado e tenta quebrar resistências.

Com um placar de 62 a 38, o democrata conseguiu passar o chamado “fast track” – um mecanismo que permitirá dar continuidade em negociações sobre acordos comerciais no Legislativo, sem a adição de emendas. O TPP tem como propósito intensificar a troca comercial entre os membros, com regras de comércio mais liberais em setores como o farmacêutico e agrícola, e, assim, servir como uma via de negociação alternativa à Organização Mundial de Comércio (OMC), presidida pelo brasileiro Roberto Azevêdo. Em pauta desde 2005, quando a primeira intenção de cooperação foi firmada, a parceria foi alvo de resistência em todo o mundo.

Dado o caráter sigiloso da iniciativa, o temor é que as regras possam causar desemprego nos mercados locais e impactos ao meio-ambiente. O empenho de Obama para encerrar seu segundo mandato com grande parte das negociações avançadas foi endossado pelo primeiro-ministro japonês Shinzo Abe. “O acordo comercial será extremamente positivo para todos os países”, afirmou o premiê. Durante a visita de Abe à Casa Branca, em abril, o presidente americano ressaltou que o Japão é um dos aliados mais próximos dos EUA e que a aliança entre ambos é indestrutível.

Para Geraldo Zahran, coordenador de pesquisa do Observatório Político dos EUA na PUC, caso o TPP seja aprovado, formará um bloco mais forte que a OMC. “Quem sairá ganhando nesse jogo são os Estados Unidos, que terão voz mais ativa para aprovar regras que os favorecem”, afirma o especialista. Enquanto o acordo segue em análise, o Brasil é criticado por se omitir diante dos grandes arranjos mundiais em negociação. Em artigo publicada em boletim do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a professora da FGV, Vera Thorstensen, que representou o Brasil na OMC, estimou em até 5% o impacto negativo nas exportações e importações brasileiras com a aprovação do acordo.

Os setores mais afetados seriam preparados de carne, produtos animais, frutas e vegetais. Segundo Rodrigo Lima, diretor-geral da Agroicone, especializada em comércio exterior, a timidez do Brasil em acordos dessa magnitude prejudica o avanço no cenário mundial. “Quando um grupo de países se envolve em um acordo regional, eles criam barreiras para os que estão de fora”, diz. “Isso será um sinal vermelho para as exportações.” Junto ao Mercosul, o Brasil negocia há anos a aprovação de um acordo de preferências com a União Europeia.

As conversas avançaram no final do primeiro mandato de Dilma Rousseff, mas perderam força diante de percalços como a resistência da Argentina em aceitar os termos e a disputa aberta pelos europeus na OMC contra medidas de proteção à indústria brasileira. Na quinta-feira 21, Dilma afirmou que as negociações entre os dois blocos são uma prioridade para a região, e que precisam avançar em 2015. Ela admitiu a possibilidade de que os países do Mercosul possam entregar propostas em ritmos distintos.“As velocidades diferentes estão previstas internamente em todos os acordos.

Elas vão ocorrer dentro da União Europeia e dentro do Mercosul”, afirmou Dilma, após receber o presidente do Uruguai, Tabaré Vasquez, no Palácio do Planalto. Em época de ajuste fiscal e escândalos de corrupção, os investimentos chineses são bem-vindos, mas não garantem, por si só, projeção na cena mundial. Para Rubens Barbosa, embaixador do Brasil em Londres no governo de Fernando Henrique Cardoso, o Brasil errou ao focar apenas em estratégias de negociação multilateral de comércio, baseada nas leis da OMC, pois deixou o País sem alternativas de troca. “Enquanto o mundo negociava 400 acordos, nós discutíamos três”, diz. “Não temos para onde correr.” Agora, só o trem chinês não será suficiente.



Autor – Paula Bezerra da Revista Isto É Dinheiro

Fonte: ISTOÉ DINHEIRO

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