Pesquisa mostra que 22,4% dos segurados concentraram 60,5% dos recursos do Programa de Subvenção ao Seguro Rural entre 2019 e 2024 e aponta desafios para ampliar o acesso e a continuidade da proteção.
Como os recursos públicos destinados ao seguro rural estão distribuídos entre os produtores brasileiros? Quem utiliza o programa de forma contínua e quem contrata a proteção apenas ocasionalmente?
Essas são algumas das questões analisadas no novo estudo da Agroicone, Esporádicos, Recorrentes e Multicontratantes: Perfis de Contratação e Concentração de Recursos no Programa de Subvenção ao Seguro Rural (2019–2024).
A pesquisa investiga o comportamento dos beneficiários do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), política pública que reduz o custo de contratação do seguro para os produtores.
Com base em dados de 2019 a 2024, o estudo apresenta diferenças na frequência de contratação, na distribuição dos recursos, nas culturas atendidas e na permanência dos produtores no programa.
Um grupo menor concentra a maior parcela dos recursos
Um dos resultados mais expressivos está na diferença entre a quantidade de beneficiários e a distribuição da subvenção federal.
Os produtores classificados como esporádicos, aqueles que realizaram até duas contratações no período, representaram 53,5% dos segurados, mas responderam por apenas 15,6% do valor subvencionado.
Em contrapartida, os multicontratantes, com seis ou mais contratos, corresponderam a 22,4% dos beneficiários e concentraram 60,5% dos recursos federais, aproximadamente R$ 3 bilhões.
O estudo também identificou que os segurados recorrentes, com três a cinco contratos no período, representaram 24,1% dos beneficiários e receberam 23,9% da subvenção.
Os números mostram que, embora o programa alcance uma base ampla de produtores, a maior parte dos recursos está associada a beneficiários que contratam seguro com maior frequência.
Diferenças entre regiões e atividades produtivas
A pesquisa também identifica contrastes territoriais no acesso e na utilização do seguro rural.
Os multicontratantes apresentam maior concentração no Centro-Sul do Brasil, especialmente em estados como Mato Grosso do Sul e Paraná. Já os segurados esporádicos têm maior participação em estados das regiões Norte e Nordeste.
Entre as atividades produtivas, a soja lidera em número de segurados nos diferentes perfis analisados. O milho segunda safra apresenta forte presença de multicontratantes, enquanto atividades como café e pecuária registram predominância de contratações esporádicas.
Esses resultados evidenciam que a utilização do seguro rural varia de acordo com as características produtivas e regionais do país.
O desafio de ampliar o acesso e a continuidade da proteção
Outro aspecto relevante é a permanência dos produtores no programa.
A análise identificou maiores taxas de saída entre os segurados esporádicos, considerando a classificação utilizada na pesquisa, e entre produtores que receberam indenizações de menor valor.
Esse comportamento sugere a importância de compreender os fatores que influenciam a continuidade da contratação, especialmente em um cenário de exposição crescente da agropecuária a riscos climáticos e produtivos.
Os resultados reforçam a necessidade de avaliar não apenas quantos produtores acessam o programa, mas também a frequência com que utilizam o seguro, sua permanência ao longo do tempo e a distribuição dos recursos entre diferentes perfis.
Ao apresentar evidências sobre esses padrões de contratação, o estudo da Agroicone contribui para o debate sobre o aprimoramento do PSR, a ampliação do acesso à proteção e o fortalecimento da gestão de riscos na agropecuária brasileira.
