Restauração ecológica com semeadura direta em APPs: resultados e aprendizados após três anos no interior de SP

Os pesquisadores da Agroicone, Henrique Aguiar de Oliveira e Laura Antoniazzi, analisam os resultados de projeto de restauração.

O projeto desenvolvido pela CAPIN (Centro de Estudos Agroambientais Pindorama) e pela Agroicone – parte da Iniciativa Caminhos da Semente – e financiado pelo FEHIDRO (Fundo Estadual de Recursos Hídricos), alcançou a restauração ecológica de 35 hectares de Áreas de Preservação Permanente (APPs) nos municípios de Olímpia (31 ha) e Nova Granada (4 ha). As áreas restauradas estão inseridas em propriedades rurais com uso predominante de cana-de-açúcar e pecuária, no interior do estado de São Paulo. 

Após três anos, os resultados demonstram a viabilidade técnica, social e econômica da semeadura direta como método eficiente para recomposição da vegetação nativa. A técnica utilizada proporcionou redução dos custos operacionais, com o uso de maquinário agrícola convencional para preparo e plantio, além de gerar impacto social e econômico para diferentes comunidades que atuaram diretamente na coleta, beneficiamento e fornecimento de sementes. 

A restauração teve início em 2022, a partir de diagnósticos técnicos individualizados por propriedade, com a avaliação de critérios como: vegetação de referência, tipo e condição do solo, potencial de regeneração natural, declividade e infraestrutura operacional disponível. Com base nesses dados, foi selecionada a semeadura a lanço mecanizada, caracterizada pela dispersão homogênea de sementes sobre o solo, sem a necessidade de linhas de plantio.

As espécies utilizadas incluíram tanto nativas florestais quanto de adubação verde, visando garantir a diversidade funcional do sistema e acelerar os processos de sucessão ecológica. Entre as nativas destacam-se: Sterculia striata (Xixá), Anadenanthera colubrina (Angico), Handroanthus ochraceus (Ipê-amarelo) e Solanum lycocarpum (Lobeira). Já nas espécies de cobertura e adubação verde, foram utilizadas Cucurbita sp. (Abóbora), Sesamum indicum (Gergelim), Crotalaria sp., Canavalia ensiformes (Feijão-de-porco) e Cajanus cajan (Feijão-guandu).

Entre os principais benefícios observados com a adoção da semeadura direta estão a redução de custos, facilidade operacional e a maior similaridade ao processo de regeneração natural, resultando em áreas com maior resiliência ecológica. Além disso, ao integrar comunidades locais na cadeia de fornecimento de sementes, o projeto contribuiu diretamente para o fortalecimento de economias locais e para a valorização de saberes tradicionais.

A experiência gerou aprendizados relevantes para o aprimoramento de políticas públicas e programas de restauração, reforçando o papel da semeadura direta como estratégia eficaz para restaurar em larga escala, com viabilidade técnica e impactos positivos integrados à conservação ambiental e ao desenvolvimento territorial.

A Iniciativa Caminhos da Semente, rede dedicada à ampliação da escala da restauração ecológica com foco na semeadura direta, forneceu suporte técnico durante o planejamento, execução e monitoramento das áreas. O projeto também contou com a participação do Redário, rede que articula grupos de coletores de sementes nativas, responsável pelo fornecimento das sementes utilizadas – uma ação que beneficiou diretamente mais de 15 redes comunitárias por meio da comercialização estruturada. 

Técnica e ações de monitoramento

Durante a execução do projeto, foram realizadas três etapas de monitoramento sistemático nas áreas em restauração: o primeiro aos 4 meses do plantio, o segundo após 12 meses e o terceiro ao final de três anos. Além desses momentos formais de avaliação, também ocorreram visitas técnicas pontuais, com o objetivo de acompanhar o desenvolvimento da vegetação e orientar eventuais ações de manejo adaptativo.

A técnica adotada, conhecida como semeadura a lanço mecanizada, aplicada em áreas de Floresta Estacional Semidecidual, mostrou-se eficaz e operacionalmente viável, sendo também apropriada para ecossistemas savânicos e campestres, desde que as condições edafoclimáticas e topográficas sejam adequadas. A técnica é especialmente indicada para áreas com terrenos planos, baixo risco de erosão e possibilidade de preparo prévio do solo, o que favorece o controle do banco de sementes de espécies invasoras ou indesejáveis.

Entre os principais benefícios da semeadura a lanço mecanizada, podemos destacar:

  • Potencial de aplicação em larga escala, permitindo cobrir grandes áreas em menor tempo;
  • Redução dos custos operacionais, com o uso de maquinário agrícola convencional para preparo e plantio;
  • Distribuição homogênea das sementes, o que favorece o estabelecimento inicial da vegetação nativa e melhora a uniformidade do processo de restauração.

Essa abordagem contribui para otimizar os resultados da restauração ecológica, com eficiência técnica, operacional e ambiental, sendo uma estratégia promissora para programas de restauração em larga escala.

Resultados e aprendizagem

A experiência acumulada ao longo do projeto reforça que o sucesso da restauração ecológica está diretamente relacionado ao acompanhamento técnico contínuo e ao manejo adaptativo. Assim como nas atividades agrícolas, o cuidado após o plantio é determinante para alcançar bons resultados.

O projeto evidenciou que plantar não é sinônimo de restaurar, sendo apenas a primeira etapa de um processo mais amplo. A recomposição da vegetação nativa exige o monitoramento de indicadores ecológicos, a realização de intervenções estratégicas, como o controle de espécies competidoras, a proteção contra animais por meio de cercamento, e o suporte técnico permanente ao longo do ciclo de restauração. 

Além dos impactos práticos nas áreas restauradas, o projeto também contribuiu para a disseminação do método da semeadura direta, também conhecido como muvuca de sementes, por meio de cursos, capacitações e apresentações em eventos técnicos.

Os resultados alcançados nas áreas de Olímpia e Nova Granada atenderam, no período de 3 anos, aos parâmetros de densidade e riqueza definidos pelo Protocolo de Monitoramento da Restauração Florestal do Estado de São Paulo (Portaria CBRN nº 01/2015). Ainda assim, as áreas demandam ações contínuas de manejo e manutenção, especialmente para o incremento da cobertura vegetal nativa, indicando que a restauração segue em processo. Esses resultados reforçam a aderência da técnica aos critérios técnicos e legais de validação da restauração ecológica.

Inovações tecnológicas e perspectivas 

O aprimoramento das técnicas de manejo de sementes, considerando as particularidades de cada espécie, é fundamental para aumentar o sucesso da restauração ecológica por semeadura direta. Nesse sentido, novas tecnologias vêm abrindo oportunidades importantes para ampliar a eficiência do plantio e o estabelecimento das espécies em campo. 

O desenvolvimento de implementos agrícolas adaptados à distribuição de sementes nativas, assim como estratégias de manejo e manutenção que incorporam o uso de drones  representam inovações com grande potencial, especialmente em áreas com restrições operacionais. Contudo, desafios como a dosagem correta, a uniformidade da dispersão e a profundidade ideal de enterramento continuam sendo fatores críticos para o sucesso da germinação e estabelecimento das espécies.

Paralelamente, o uso de bioinsumos, como inoculantes, bioestimulantes e condicionadores de solo, emerge como uma área estratégica de pesquisa, capaz de aumentar o vigor inicial das plântulas e recuperar as condições físicas, químicas e biológicas do solo.

A integração dessas frentes tecnológicas oferece oportunidades concretas para reduzir custos, ampliar a escala de implantação e elevar os índices de sucesso da restauração ecológica por semeadura direta, especialmente em contextos produtivos e de políticas públicas de larga escala. Ao combinar tecnologias já consolidadas no setor agrícola com o conhecimento técnico e as práticas da restauração ecológica, torna-se viável recuperar APPs e promover a regularização ambiental de propriedades rurais, fortalecendo ainda mais a sustentabilidade da agricultura paulista.

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