IMO avança em agenda climática do transporte marítimo, mas negociações seguem em curso  

Reuniões realizados em Londres evidenciam progressos técnicos na agenda climática do setor marítimo, mas mantêm negociações em curso sobre medidas de médio prazo

As discussões mais recentes da Organização Marítima Internacional (IMO), realizadas entre 27 de abril e 2 de maio, em Londres, marcaram um momento decisivo e ainda em processo de consolidação para a agenda global de descarbonização do transporte marítimo.

Representando a Agroicone, participaram das reuniões Marcelo Moreira, sócio e pesquisador sênior, e Marjorie Guarenghi, pesquisadora, que acompanharam de perto os debates e destacam avanços importantes, ao mesmo tempo em que apontam os desafios que ainda permanecem para a construção de um acordo internacional robusto.

Segundo os especialistas, os encontros evidenciaram progressos técnicos relevantes, mas também deixaram claro que divergências geopolíticas continuam influenciando o ritmo das decisões.

Um acordo central ainda em negociação

Um dos principais temas das discussões foi o avanço do chamado Net Zero Framework (NZF), considerado peça-chave para orientar a redução das emissões no setor marítimo internacional.

Embora tenha contado com o apoio da maioria dos países no início de 2025, o acordo ainda não foi formalmente adotado, em grande medida devido a pressões geopolíticas que ganharam força ao longo do processo. Durante as reuniões, observou-se uma articulação consistente de alguns países, especialmente Estados Unidos, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, no sentido de reabrir pontos estruturais do acordo, incluindo o desenho do mecanismo econômico, a aplicação de penalidades e o ritmo da transição energética.

Em contraponto, países como Brasil, membros da União Europeia e África do Sul defenderam uma abordagem construtiva, orientada ao avanço das negociações e à viabilização da adoção das medidas da IMO ao longo de 2026. Essas delegações enfatizaram a importância de combinar instrumentos econômicos com critérios técnicos robustos, capazes de assegurar previsibilidade regulatória e efetividade na redução das emissões.

Nos bastidores, há um reconhecimento crescente do papel do Brasil como um dos atores-chave na construção de consensos, contribuindo para a formulação de um acordo equilibrado e factível, alinhado aos objetivos da Estratégia 2023 da IMO e à necessidade de ampliar a contribuição do setor marítimo para o enfrentamento das mudanças climáticas.

Diante desse cenário, as negociações seguem ao longo de 2026, com novas rodadas previstas para setembro e novembro, e expectativa de deliberação final em dezembro.

Biocombustíveis ganham espaço nas discussões internacionais

Um dos avanços mais concretos observados nas reuniões foi o reconhecimento de rotas de combustíveis com base em sua pegada de carbono — um passo relevante para a operacionalização da transição energética no setor marítimo.

O destaque ficou para o etanol de milho de segunda safra brasileiro, que se tornou a primeira rota de combustível marítimo a ter um valor padrão de emissões aprovado pela IMO.

Para Marjorie Guarenghi, esse reconhecimento representa um sinal importante ao mercado: “A aprovação de uma rota com base científica robusta indica quais caminhos são considerados viáveis do ponto de vista regulatório e ambiental, e abre espaço para que os biocombustíveis ganhem protagonismo na descarbonização do transporte marítimo.”

Para Marcelo Moreira, “a aprovação do valor do etanol de milho segunda safra abre caminho para outras rotas, que em breve devem ter seus valores apreciados. A colaboração internacional em disseminação de soluções nos diferentes continentes e na formação de “corretores verdes” será essencial para a transição”.

Além disso, outras rotas brasileiras, como etanol de cana, biodiesel de soja e sebo bovino, seguem em avaliação, o que pode ampliar ainda mais as oportunidades para o país nesse mercado.

Avanços institucionais: certificação e metodologia

Outro eixo importante das discussões foi o avanço na construção das diretrizes para certificação de combustíveis sustentáveis.

As negociações caminham para a definição de critérios de reconhecimento de sistemas de certificação e da estrutura de governança responsável por sua avaliação — elementos fundamentais para garantir credibilidade ambiental e segurança regulatória.

Paralelamente, houve evolução no aprimoramento do framework de Avaliação de Ciclo de Vida (LCA), base técnica para mensurar as emissões associadas aos combustíveis.

Marcelo Moreira destaca o papel do Brasil nesse processo: “O país tem contribuído de forma consistente com o desenvolvimento metodológico, especialmente em temas complexos como a avaliação de mudança indireta do uso da terra (ILUC), o que reforça seu protagonismo técnico nas discussões internacionais.”

O grupo de especialistas segue refinando metodologias, revisando valores padrão e incorporando critérios de sustentabilidade mais robustos.

Novo estudo global de emissões em desenvolvimento

As reuniões também avançaram na definição dos termos de referência para o 5º Estudo de Gases de Efeito Estufa da IMO, previsto para 2026.

O estudo terá papel estratégico ao atualizar:

  • o inventário global de emissões do transporte marítimo;
  • a intensidade de carbono do setor;
  • e as projeções futuras de emissões.

Essas informações serão fundamentais para embasar decisões regulatórias e orientar a trajetória de descarbonização da indústria.

O que está em jogo

Na avaliação da equipe da Agroicone, os resultados das reuniões reforçam que a agenda climática da IMO avança em duas dimensões complementares:

  • técnica, com progressos consistentes em metodologias, certificação e reconhecimento de combustíveis;
  • política, ainda marcada por divergências que condicionam o ritmo e o alcance das decisões.

Para o Brasil, esse contexto traz tanto desafios quanto oportunidades. De um lado, há potenciais impactos sobre custos logísticos e regulação da navegação. De outro, abre-se espaço para consolidar o país como fornecedor estratégico de combustíveis sustentáveis e como referência técnica na agenda de descarbonização.

Um processo em construção

As reuniões de Londres evidenciaram que a descarbonização do transporte marítimo entrou em uma fase mais concreta, com avanços técnicos relevantes. No entanto, a definição final das regras que irão orientar o setor dependerá da capacidade de convergência entre os países nos próximos meses. Até lá, o tema seguirá no centro das discussões internacionais, com implicações diretas para comércio, energia e clima em escala global.

Para entender de forma visual como funciona o framework Net Zero da IMO e seus impactos para o Brasil, acesse o infográfico preparado pela Agroicone.

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